Contra a natureza
A cesárea atinge índices impressionantes no país, chegando a 79% na rede particular. A OMS recomenda que apenas 10% a 15% dos partos sejam cirúrgicos.
Você prefere parto normal ou cesárea? A pergunta, ouvida com freqüência durante a gestação, faz sentido: hoje essa escolha é considerada um direito da mulher.
No entanto, a opção perde seu caráter de direito quando olhamos a situação mais de perto. O Brasil tem o segundo maior índice de cesarianas do mundo. Enqunto a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta como seguras taxas entre 10% a 15%, em 2004, 41,8% dos partos realizados no país foram cirúrgicos, conforme dados do Ministério da Saúde. Na rede pública, são 27,53%, abaixo apenas do Chile, com 40%. Pior: no setor particular, que inclui os planos de saúde, esse número chegou a inacreditáveis 79%. Nos Estados Unidos, a taxa é de 20,6%, na Inglaterra, 19% e na Holanda, 14%.
“A cesárea pode ser um direito da mulher, desde que ela esteja informada de todos os riscos. Hoje o parto cirúrgico está sendo imposto, porque ela não tem informação. E o direito da mulher que quer um parto normal, quem garante?”, questiona a advogada e doula Patricia Bortolotto, integrante da Parto do Princípio.
E elas não são poucas. Um estudo de 2001, feito em quatro capitais brasileiras (Porto Alegre, Belo Horizonte, Natal e São Paulo), com 1.136 mulheres e publicado no British Medical Journal, revelou que 80% das gestantes preferiam ter suas crianças pelo parto normal.
Esse descompasso entre o desejo das mães e a história de seus partos tem diversas razões. O modelo de atendimento adotado no Brasil, focado na figura do médico, aumenta o número de cesáreas. Os Estados Unidos – de onde vem esse modelo – têm as taxas mais altas dos países ricos. “Os médicos têm um estilo de vida que não comporta acompanhar um parto normal. Se você tiver seu bebê na França, Alemanha ou Inglaterra, não vai escolher o médico que vai fazer o parto. Nos países onde as mulheres são atendidas por parteiras, a taxa de cesárea é menor e a mortalidade materna e fetal também”, afirma a bióloga, doula e educadora perinatal Ana Cristina Duarte, uma das idealizadoras das iniciativas Amigas do Parto e Doulas do Brasil e co-autora do livro Parto Normal ou Cesárea? O que Toda Mulher Deve Saber (e Todo Homem Também).
Não é difícil entender por que esse modelo favorece as cesarianas. Mesmo que planos de saúde paguem menos pela cirurgia (80% do valor do parto normal), a conta final é desfavorável ao parto normal pelo tempo que demora – em média 12 horas, contra uma hora necessária para a cesárea. Nem é preciso desmarcar consultas em cima da hora.
Além disso, as chamadas cesáreas eletivas – marcadas com antecedência – são convenientes para a agenda do médico e da paciente. Não há imprevistos em um fim de semana, feriado ou de madrugada.
O receio de processos judiciais por erro médico é outro impulso à cirurgias. “Não há processos por cesáreas desnecessárias, mas há por problemas no parto normal”, lembra Patricia. Todo parto envolve riscos e impera a idéia de que, se ocorrer algum problema em uma cesariana, pelo menos o médico “tentou algo”.
A cultura da cesárea é tão forte que a própria formação dos profissionais de saúde é voltada a ela. “Muitos médicos não têm segurança para fazer um parto normal”, alerta o obstetra Carlos Miner Navarro, chamado por alguns colegas de profissão de “dinossauro da obstetrícia” por defender o parto normal.
Para o obstetra Fernando Cesar de Oliveira Júnior, presidente da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Paraná, a taxa de cesárea no sistema privado é tão alta por vários motivos. Um deles seria o desejo das pacientes, que pedem a cirurgia. “É claro que o parto normal é melhor. É mais natural, mais indicado e tem menores riscos. Mas é uma cultura complicada de desfazer.”
Informação é o caminho mais curto para mudar essa situação. “A paciente tem opção. A questão é quais informações ela tem para tomar a decisão”, questiona Navarro. “O governo e a mídia deveriam fazer mais campanhas incentivando o parto normal. Em duas novelas recentes, vários partos foram cesáreas. Quando mostram partos normais, é sempre sofrido. Assim, qualquer um fica com medo”, pondera Oliveira.
O atual modo intervencionista do parto normal também não ajuda muito (veja box na página 9). “A idéia do parto normal tem de ser atrativa. Hoje em dia, pelo que se oferece, é assustadora”, lamenta Ana Cristina, que defende o direito à “escolha informada”. Escolha que passa, inclusive, pelos procedimentos usados rotineiramente no parto normal, capazes de transformá-lo em traumatizante no lugar de garantir uma experiência gratificante.
Indicações e riscos
A cesárea é necessária:
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Em casos de placenta prévia (localizada no colo do útero).
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Bebê em posição transversa (nem sentado, nem de cabeça para baixo).
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Herpes genital com lesão ativa no fim da gestação.
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Eclâmpsia.
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Prolapso de cordão (o cordão umbilical aparece antes da cabeça do bebê).
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Descolamento prematuro da placenta.
Riscos
Parto normal
Para a mãe: hemorragia
Para o bebê: sofrimento fetal agudo, que é a falta de oxigênio durante o trabalho de parto. Hoje acredita-se que os problemas neurológicos ocorrem em algum momento antes do parto. “A taxa de cesáreas está aumentando no mundo todo e a de paralisia cerebral não está diminuindo”, afirma o obstetra Carlos Miner Navarro.
Riscos da cesárea
Para o bebê: Prematuridade, podendo ser grave ou mais leve. “As cesáreas estão sendo agendadas quando se acha que o bebê está maduro apenas com base no ultra-som, cuja acurácia não é grande no final da gestação. Isso teve como conseqüência o aumento da prematuridade iatrogênica, isto é, causada pelo tratamento médico. Esta prematuridade está se tornando um sério problema de saúde pública”, diz a mádica epidemiologista Daphne Rattner, da equipe da área técnica de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde e co-autora do livro Humanizando Partos e Nascimentos. Mesmo nos graus mais leves, o bebê fica internado podendo ocasionar prejuízos para a amamentação e formação do vínculo mãe-bebê.Mesmo nos bebês que nascem a termo, o risco de desenvolver desconfortos respiratórios é maior, porque o parto vaginal serve para terminar o amadurecimento do bebê.
Para a mãe: Riscos inerentes a uma cirurgia: infecções, hemorragia, hérnia, complicações da anestesia.
Na próxima gravidez, o risco de descolamento de placenta ou placenta prévia é maior. Também pode acontecer o acretismo de placenta, que é uma "invasão" do útero ou outros órgãos pela placenta. O risco aumenta com o número de cesárias.
O parto emocional
Para a mãe, o parto é um ritual de passagem: “Tornar-se mãe é uma mudança psicológica importante. O tempo do trabalho de parto é um rito que insere o aspecto psicológico, torna a maternidade real”, explica a psicanalista Madalena Becker de Lima, que trabalhou durante oito anos em uma maternidade. “O parto é um trabalho conjunto da mãe e do bebê e isso tem um simbolismo muito forte”, completa.
Para o bebê, as contrações são importantes sinais para o nascimento. Na cesárea, ele é retirado abruptamente e não pode ficar no peito da mãe, que precisa ser suturada.
Ao delegar decisões importantes sobre o nascimento de seu bebê a instituições e médicos, a mulher sofreu um processo de “desempoderamento”, conforme o obstetra, ginecologista e homeopata Ricardo Herbert Jones, de Porto Alegre. “Ele é parte de um modelo da sociedade contemporânea que considera corpo feminino como máquina, e uma máquina defeituosa.”
“A mãe fica frustrada quando é expropriada do direito de dar à luz. Na cesárea, quem dá à luz é o médico”, complementa a enfermeira-obstetriz Marília Largura, que participa de grupos pelo parto humanizado e atende a partos domiciliares em Brasília.
“Alguns estudos relacionam a depressão pós-parto com a ausência de suporte adequado à mulher no parto”, alerta Jones. “A sociedade contemporânea e urbana isola mulheres em multidões, sem o amparo que recebiam das comunidades em que estavam inseridas antigamente.”
Para a psicanalista e doula Maria Juracy Aires, até a analgesia solicitada pela mulher na hora do parto “não se restringe à dor física, mas também às dores do medo, da insegurança, da solidão”. É preciso que as parturientes acreditem que são capazes. “A mulher é preparada para o parto normal, tem dispositivos biológicos, hormonais, emocionais, psicológicos adequados para ter seu bebê”, completa a psicanalista. (EB)
Três nascimentos, três histórias
“Não é preciso preparo nenhum para ter parto normal.” Palavra de quem já passou pela experiência três vezes. O primeiro parto de Felicitas Kemmsies, 33 anos, foi na Suécia, onde nasceu Ulf, hoje com 8 anos. “Tive a grande sorte de já estar em um ambiente humanizado. O quarto era mais parecido com o normal, mas fui submetida a algumas coisas que não precisava. Romperam minha bolsa, fiquei em monitoramento constante e me convenceram a deitar na cama. Fiquei presa e com mais medo do que seria necessário. Me perdi na dor e não me concentrei no parto, me senti desconectada do meu corpo.”
Grávida de Björn, hoje com 5 anos, Felicitas soube que voltaria ao Brasil. “Sabia que aqui era ruim, mas não achava que fosse tão grave.” Ela optou por um hospital em que sua médica tinha maior “abertura”. “Isso era importante porque sabia que ela poderia quebrar protocolos se necessário”. O menino nasceu no quarto do hospital, o que causou um rebuliço na instituição. “Era o que eu queria, estava com meu marido me apoiando e isso foi muito importante”, diz. Mas nem tudo foi como ela gostaria. Foi impedida pelas enfermeiras de dar o primeiro banho no bebê. “Me senti tão invadida com aquela atitude! É um momento de muita fragilidade, você está totalmente indefesa.”
Depois dessas experiências, Felicitas decidiu ter Liv, há nove meses, em casa, cercada do carinho e apoio da família.“Uma das coisas que mais me deixou feliz foi minha mãe estar lá. Ela achava um absurdo ter um filho em casa, estava nervosa, mas ficou completamente extasiada. Foi uma transformação para ela também.” (EB)
O parto normal
Intervenções
A Organização Mundial da Saúde condena a chamada “cascata de intervenções” no parto normal. Em 1998, recomendou “o mínimo possível de intervenção que seja compatível com a segurança”. Alguns procedimentos são necessários em certos casos, mas estão sendo usados como rotina na maioria dos partos.
Lavagem intestinal: não há benefício em usá-la de forma rotineira, além de ser desconfortável. A mulher pode optar por ela se estiver constipada.
Tricotomia: a raspagem dos pêlos pubianos não reduz a incidência de infecções e o crescimento dos pêlos pode ser bastante desconfortável.
Jejum: defendido por médicos e hospitais durante o trabalho de parto para a eventualidade de uma cesárea. Pode provocar fraqueza e desnutrição.
Posição: a mulher deve ter liberdade de movimentos. A posição deitada de costas aumenta a dor, desfavorece a descida do bebê – nas posições verticais, como de cócoras ou sentada, a gravidade ajuda – e aumenta a possibilidade de lesões na vagina. Monitoramento fetal constante e administração de soro são outros procediemntos dispensáveis em gestantes de baixo risco e que limitam os movimentos.
Ruptura artificial da bolsa: o objetivo é apressar o parto. Mas o líquido tem efeito protetor e o rompimento aumenta as chances de infecção e cria um limite de tempo para o parto.
Administração de ocitocina: drogas para acelerar o parto tornam as contrações mais dolorosas e difíceis de suportar para a mãe e para o bebê. Os riscos incluem restrição do suprimento de oxigênio para o bebê e uso de mais intervenções, aumentando a chance de uma cesárea.
Episiotomia: o corte na abertura da vagina para aumentar o canal de parto tem recuperação bastante desconfortável, pode inflamar e infeccionar. A cicatriz pode afetar o prazer sexual provocar dor durante a penetração.
Manobra de Kristeller: quando a enfermeira ou anestesista faz força sobre a barriga da mulher, empurrando o bebê. É condenada em qualquer situação, mas ainda usada em alguns hospitais brasileiros.
Mitos e medos
Dor: a dor no parto é resultado da contração muscular do útero e da distenção de diversas estruturas no canal de parto. Mas ela pode ser intensificada por sentimentos como medo e estresse e pelo modelo de assistência. As intervenções acima podem explicar muito da dor. Há formas de aliviá-la, como banhos de imersão ou de chuveiro, massagens, liberdade de posição, presença de pessoas queridas e de confiança. Também há a analgesia de parto, que evoluiu muito nos últimos anos. Ela não é inócua, mas é uma alternativa. E a promessa de um parto sem dor no caso da cesárea é falsa, já que a cirurgia causa dor no pós-parto, período em que a mãe deveria estar disposta a “maternar” seu bebê.
Ficar com a vagina “larga”: a vagina é flexível e a única forma de aumentar sua força são exercícios específicos. Intervenções como a episiotomia, a posição deitada de costas e o puxo dirigido (a ordem para fazer força) são o que lesam o períneo.
Ficar com bexiga caída: o vilão não é o parto, mas a própria gravidez, a genética e a idade. Nesse caso, os exercícios também ajudam.
Parto normal após cesárea (PNAC): ao contrário da crença geral, é possível. O principal risco é de ruptura uterina (taxa de 0,2 a 0,5%). A ruptura também ocorre em mulheres que nunca tiveram filhos ou foram operadas, às vezes antes do trabalho de parto. O risco de uma cesária ainda pode ser maior.
Saiba mais
Internet:
www.doulas.com.br
www.partodoprincipio.com.br
www.amigasdoparto.com.br
www.rehuna.org.br
www.partohumanizado.com.br
www.institutoaurora.com.br
Livros:
Parto Normal ou Cesárea? O que Toda Mulher Deve Saber (e Todo Homem Também), Simone Grilo Diniz e Ana Cristina Duarte, Ed. Unesp / Humanizando Nascimentos e Partos, Daphne Rattner e Belkis Trench (oganizadoras), Ed. Senac / Quando o Corpo Consente, Marie Bertherat, Thérèse Bertherat e Paula Brune, Martins Fontes / Parto Ativo: Guia Prático para o Parto Natural, Janet Balaskas, Ed. Ground
Publicado no suplemento Viver Bem da Gazeta do Povo de 30/09/2007 por Érika Busani erikab@gazetadopovo.com.br