Relato de parto – Beatriz (Bea)

Nascimento da minha filha Beatriz (Bea, Beazinha, Piticuli, como costumamos chamar)

Há exatos 18 meses (08/05/2007) minha filha Beatriz chegou para trazer muita alegria para mim e seu pai! Foi muito desejada e esperada por nós.

Tive uma gestação complicada de início, com sangramentos nas primeiras 14 semanas. No início Bea não conseguia segurar direitinho no meu útero e depois houve um descolamento de placenta. Foi muito difícil, pois precisei ficar de repouso e chorava dia e noite com muito de medo de perder o bebê. Afinal, tentávamos engravidar há mais de 01 ano.

Passado esse período, tudo transcorreu tranquilamente. Bea era geniosa desde pequenininha. Adorava quando papai conversava com ela. Toda noite antes de dormir, colocávamos música pra que ela ouvir e ficávamos fazendo festa, e a pequena respondia sempre. Parecia dançar na minha barriga.

bea1Sonhamos em trazê-la ao mundo da maneira mais agradável e saudável possível, num lindo parto natural, sem analgesia, no qual seria aparada pelo papai, não teria seu cordão clampeado antes de parar de pulsar, mamaria tão logo nascesse e não sairia do meu lado. Tínhamos um anjo nos acompanhando e que estava conosco neste barco, nosso querido amigo e obstetra Carlos Miner.

Tudo corria bem, com 34 semanas resolvemos viajar para Ilha do Mel na páscoa, pra desespero da minha sogra. Nesta mesma época fizemos uma ultrasonografia e descobrimos que Bea ainda estava sentada, posição na qual ficou durante toda a gestação. Em princípio não nos preocupamos, pois ainda havia bastante tempo pra virasse e ficasse na posição cefálica.

Após saber que ela estava pélvica, voltando da viagem, comecei a procurar na internet sobre parto de bebê pélvico e li coisas horríveis que me deixaram preocupada como a cabeça derradeira no parto normal e ainda o fato dela estar sentada poderia estar associado há alguma síndrome. Pensei que se ela continuasse assim, infelizmente iria para uma cesariana, pois não queria que a bebê corresse qualquer risco. Comecei a fazer exercícios com a ajuda do meu marido para ajudá-la a virar e sentia que realmente tentava, mas não conseguia.

Na última consulta com o Dr. Carlos (03/05/2006), conversamos muito e decidimos por uma versão externa cefálica para tentar posicioná-la de cabecinha pra baixo no dia em que completaria 37 semanas. Falamos também sobre a possibilidade de parto natural pélvico e o Dr. Carlos falou que era possível e disse também que quanto menos interviesse, melhor. Então, decidimos que se Bea continuasse pélvica, mas a evolução do TP fosse boa – porque assim eu ficaria mais segura, queria o parto normal, afinal tínhamos um GO experiente e que nos passava muita confiança. Além disso, conversamos também sobre a questão da maior probabilidade da bebê portar uma síndrome e eles nos disse que não havia qualquer outro indício, mas que se ela tivesse o que nós poderíamos fazer?

Saímos tranqüilos e confiantes do consultório, com a VEC marcada para o dia 08/05/2006 às 18:00hs, e acreditávamos que tudo daria certo! Claro, bem conscientes de que a chance da VEC dar certo era de 20-25%, mas precisávamos tentar.

Na sexta-feira dia 05 de maio, senti muitas contrações, mas achei bem normal, afinal era meu corpo se preparando para o grande dia. Não fui trabalhar à tarde, pois tive duas boas contrações atravessando a rua e achei que a hora estava se aproximando. 

No sábado as contrações continuaram e eu sentia uma necessidade imensa de deixar tudo pronto e no domingo acordei muito triste e indisposta. Fiz meu marido baixar todas as fotos da máquina. Fui passear no shopping, triste porque poderia ser a última vez com o barrigão. Tinha a sensação de que algo muito bom estava para acabar.

À noite assistimos um DVD. Eu, como sempre, dormi e meu marido levou-me pra cama. Às 02:40 hs da manhã, virei de lado, quando ouviu um “ploc” e senti algo molhado. Levantei da cama e fui ao banheiro e chamei por meu marido dizendo que não conseguia parar de fazer xixi.

O Marlon pulou todo feliz da cama e disse que não era xixi, mas a bolsa que tinha rompido. Eu não queria acreditar e disse que voltaria pra cama e só sairia de lá pela manhã! O Marlon foi fazer a barba e terminar de arrumar a mala. Como eu deitei, ele também resolveu dormir. O líquido não parava de sair. Às 04:00hs saiu o tampão e as 05:00hs as contrações passaram a ficar um pouco mais doloridas. Vi o dia amanhecer e liguei pro Dr. Carlos às 08:30hs falando o que estava acontecendo e então marcamos de nos encontrar às 09:30hs, neste intervalo tomei banho, café e terminei de arrumar tudo. Como meu marido precisava passar no escritório chegamos ao hospital às 10:05hs. 

O Dr. Carlos estava nos esperando na recepção. Eu tinha esperança de que meu corpo estivesse trabalhando bem e estar com alguma dilatação e que tudo estivesse favorável ao meu tão sonhado PN. Quando meu GO fez o toque constatou o colo estava impérvio, não havia dilatação, Bea além de pélvica estava bem alta. As contrações ainda não estavam efetivas apesar de doloridas. Eu sentia algumas bem doloridas em torno de 10-9 minutos, mas nesse intervalo tinha algumas que eu não sentia dor. Realmente a bolsa havia rompido. 

Diante de todo o quadro ele nos disse que a situação não era propícia para um parto normal e que indicava cesariana. Foi um choque, uma grande tristeza e frustração tomou conta de mim e só consegui dizer que tudo bem. Perguntei a que horas da tarde seria, ao que ele respondeu que seria naquele momento, pois havia centro cirúrgico disponível. Eu disse que não podia, uma vez que tinha que ligar pra todo mundo, pro pediatra, pra pessoa que ia filmar. Mas não teve jeito. Marlon tentou argumentar se não poderíamos ainda esperar pelo parto normal e ele nos respondeu que diante de todo o quadro ela acreditava que esperaríamos e provavelmente acabaríamos numa cesárea mais tarde.

E assim, subi pro Centro Cirúrgico me segurando pra não chorar, nunca senti tão frustrada e incapaz. Justamente num dos momentos que deveria ser o mais feliz da minha vida. Quando cheguei no CC vi no quadro que havia inúmeras cesarianas marcadas para aquele dia. Porque será? Segunda-feira. A anestesista foi muito querida, mas eu estava apavorada, em pânico mesmo, o Dr. Carlos veio e perguntou se estava tudo bem ao que só conseguiu balançar a cabeça, pois se falasse iria começar a chorar. Perguntava-me o tempo todo porque aquilo estava acontecendo, porque meu corpo não tinha feito seu trabalho direitinho pra trazer minha filha ao mundo do jeitinho que tem que ser? 

A anestesia demorou um pouquinho a fazer efeito, meu marido chegou e ficou ao meu lado. Assistiu toda a cirurgia. Fiquei preocupada o tempo todo pensando se Bea estava bem. De repente meu marido falou: “olha a mãozinha e o bracinho!”. Nesse momento o protetor do campo cirúrgico foi baixado pra que eu pudesse vê-la sendo retirada. O Dr. Carlos desfez uma circular de cordão – possivelmente o motivo pelo qual mesmo com todos os exercícios e conversas a pequena tentava e não conseguia virar, e a primeira coisa que vi foi seu bumbum e achei muito pequeno. Bea já estava reclamando, não posso chamar de choro, pois só foi chorar mesmo com mais de dois meses. Nasceu cheia de vernix, linda, bem branquinha e com cabelo escuro. Só parou de resmungar quando foi pro colo do papai. O cheirinho da minha filha era uma delícia, poder vê-la e tocá-la foi muito bom. Não dá pra descrever a felicidade em tê-la ali, tão pequenininha e bem. Nasceu de bumbum virado pra lua, com 2,105 kg, 41,3 cm e com 37 semanas, às 10:35hs do dia 08/05/2006, numa linda segunda-feira de céu azul e ensolarada. No mesmo dia em que havíamos marcado a VEC (versão externa cefálica). 

bea2

Como nasceu muito pequena pra idade gestacional o pediatra recomendou complemento via sonda naso-gástrica. Bea não tinha desenvolvido o reflexo de sucção e tivemos muita dificuldade na sua amamentação. Tive mastite duas vezes e ela só perdia peso e chegou a pesar 1.700kg, mas com muita persistência com 02 meses e meio consegui deixá-la só no peito e foi amamentada até 1 ano e 9 meses quando resolveu que não queria mais mamar.

O período após o nascimento foi muito difícil. Demorei a aceitar a cesariana e morria de saudades da pequena dentro da barriga, mas cada vez a olhava não via motivo pra tanta tristeza e com a ajuda do meu marido consegui superar. Chorava todo dia e as vezes o dia todo.

Bea não chegou ao mundo da maneira que sonhamos, mas seu nascimento trouxe muitas mudanças. Tornei-me doula e hoje ajudo outras mulheres durante suas gestações, trabalho de parto e parto. No tempo que a gestei aprendi a ser mais paciente e que tudo tem seu tempo e minha cesárea ensinou-me que é preciso superar as frustrações e seguir em frente.

Agradeço a minha filha por ter me escolhido como sua mãe e por me ensinar todos os dias muitas coisas. Posso dizer que junto dela e do meu marido sou a pessoa mais feliz e grata do mundo.

Agradeço ao Marlon, meu marido, por todos esses 13 anos e meio de convivência, companheirismo e amor e por me dar uma filha tão linda.

Ao Dr. Carlos Miner por nos acompanhar nesta jornada e por sua paciência e comprometimento conosco e mesmo durante a cesariana ter feito de tudo pra que nossas vontades fossem atendidas e Bea nascesse num ambiente respeitoso. Afinal, sempre digo que não dei à luz, mas sim o Dr. Carlos o fez. Talvez por isso Bea seja tão apaixonada por ele.

Hoje sei que por mais que de forma consciente eu quisesse muito um parto natural eu não estava preparada para qualquer adversidade que surgisse. O fato da minha bebê estar pélvica e as informações erradas e distorcidas que obtive me deixaram muito preocupada o que fez com que meu corpo não trabalhasse pra um parto, e sinceramente na época não encarava o parto pélvico como algo natural. Mas essa experiência abriu novos caminhos e sinto-me grata por ter sido assim.

Bea chegou e mudou tudo! Obrigada filha! Amo você!

Novembro/2007

Patricia Bortolotto

Curitiba/PR

Curta e compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>