Relato de parto – Fer e Ique

Tive duas experiências diferentes e ao mesmo tempo parecidas nas minhas gestações e  nos meus partos. Nas duas gestações o desejo de fazer tudo de maneira natural. De entender meu corpo e de me apropriar do meu desejo de parir e de ter essa conexão maravilhosa com meus bebês.

Na primeira gestação eu esperava a minha Fernanda. Conversava com minha gineco sobre minha vontade de ter um parto natural e ela me dizia que decidiríamos na hora. Minha mãe pariu a mim e ao meu irmão fácil e rapidamente. Sempre acreditei que seria simples assim.

Mas para minha surpresa meu sonho foi roubado de mim. E o pior que só percebi que fui enganada muito tempo depois. Fui vítima da minha inexperiência, da minha falta de informação e da minha inocente confiança na minha então obstetra.

Com 39 semanas e 4 dias minha bolsa estourou na  madrugada e seguimos, eu e meu marido, ansiosos, num misto de alegria e apreensão, para a maternidade. Cheguei com 3 cm de dilatação. Eu estava me sentindo bem e pelo meu desejo esperaria o tempo que precisasse para concluir meu sonhado parto natural. Minha médica chegou 5 horas depois do horário que internei. Esperou comigo uma hora, fazendo toques e mais toques (desnecessários, mas eu não sabia). Olhava o relógio e  estava impaciente, sinais que eu, assim como uma esposa traída só fui entender  depois… Administrou ocitocina, num desespero em acelerar o ritmo da minha natureza, com o qual eu estava tranquila e feliz. Não funcionou e 07 horas após o rompimento da minha bolsa ela me disse eu não podia mais esperar, eu continuava com “apenas” com 3cm de dilatação, oque vim a interpretar depois como “já 3 cm”, nos encontros  de grupo com a Pati. A médica me disse que minha filha corria perigo, que eu poderia contrair uma infecção, ou que ela ficaria sem líquido. Aquela médica tirou de mim, de mãos armadas com suas luvas e com seu semblante convincente e falsamente preocupado, o momento que pertencia a mim e à Fernanda.

Eu diante de minha imaturidade, mãe de primeira viagem, senti meu corpo inteiro tremer e minha alma e coração rejeitarem a informação de que eu iria enfrentar uma cesárea.  Um pânico e uma tristeza imensa tomaram conta dos meus sentidos e eu só queria sair correndo. Mas a “dona do saber”, a médica em quem eu confiava com quem vinculei convidando-a para participar do melhor momento da minha vida, me dizia o que era certo fazer. Então fui eu, dentro da minha bolha de medo, ser preparada para aquele processo que até então parecia tão distante de mim. Meu marido veio mais nervoso e mais inexperiente do que eu. Lembro da sala fria, das luzes ofuscantes, daquelas pessoas que eu nunca tinha visto. Eu  estava sendo violada em meu momento mais vulnerável…o que me soa extremamente invasivo e covarde. 

Minha médica vivia mais um momento banal, como quem escova os dentes pela milésima vez na vida, se olhando no espelho e pensando no que irá almoçar. Eu estava totalmente tensa e a anestesia doeu muito, só um pouco menos intensamente do que a dor e o vazio que seu sentia na alma. O resto é um borrão…tiraram (literalmente) minha filha de mim, a mostraram quando estava toda empacotada, colocaram-a mais ou menos perto do  meu pescoço (isso mesmo, não foi no meu colo) para tirarem a foto de família, enquanto eu tentava entender em que planeta eu me encontrava. E na mesma velocidade ela foi levada para se “esquentar” na incubadora, como se tivesse nascido de uma chocadeira, como se eu fosse incapaz de aconchega-la e acalentar cada pedacinho dela. Pedi ao meu marido que não saísse do lado dela. Enquanto isso aguardei na maca, no corredor, por uns 40 minutos que pareceram anos e mais anos. Em um estado de letargia, de medo, de confusão mental, no momento em que eu devia estar me sentindo completa, poderosa, plena, feliz… Nos dias na maternidade não me incentivaram a amamentar, pois ela tinha “reservas”  do útero, o suficiente para sentir-se alimentada. Enfim, resumo da história, meu choque emocional, minha contrariedade, a falta de noção das enfermeiras, etc, somaram para que eu tenha conseguido amamentar por 04 meses, á duras penas, complementando desde a primeira semana. O tempo foi passando e eu acabei me convencendo de que eu estava exagerando, intensificando meus sentimentos, afinal ela nasceu super bem, todos me diziam, como se eu fosse louca em pensar oq eu pensava e em sentir o que sentia.

O tempo passou e eu guardei aquela dor e aquela decepção em uma caixinha no fundo do armário, mas não joguei a chave fora, a vida sabia que eu ainda voltaria a abri-la. Quando a Fernanda tinha 2 anos e 8 meses em engravidei novamente do Henrique. Aí então resolvi fazer tudo diferente. Agora sim eu teria meu parto natural. Um pouco antes de engravidar eu já havia pesquisado na internet e minha frase de busca era: “obstetra, parto humanizado, Curitiba”. E foi quando encontrei o Dr Carlos Miner e Pati, anjos na minha vida. Vibrei de felicidade e pensei: agora é o meu momento!!!! Minha gravidez foi acompanhada pelo Dr. Carlos, passei a frequentar as reuniões com a Pati e a fazer Yoga com a Simone, anjo também. Me preparando para viver meu sonho, amadurecida e dona das minhas decisões. Mas, a vida sempre mostra pra gente que podemos até vislumbrar uma conclusão para oque  vivemos, mas que ela, a Dona Vida, poderosa e sábia é quem  decidirá o final por nós.

Com 28 semanas Henrique estava sentado na Eco em que descobrimos isso o médico  (elefante na loja de cristais) já me adiantou: “ixi…está sentado, nessa época de gestação…quer dizer que vem aí mais um bebezinho nascido de cesárea”. Pra ele só uma frase e até um jeitinho de dizer, se renda ao sistema,rs… Tudo bem, não posso negar, ele tocou na minha ferida, ferida ainda não cicatrizada, começou a doer novamente. Minha equipe de Anjos me tranquilizou e me disse que tinha muito ainda pra acontecer. Começamos a nos esforçar nas aulas de Yoga, tentando convencer Henrique a virar. Eu conversava com ele também. Enfim,  o danadinho continuou me mostrando o peso de sua própria escolha.  

Tentamos a Versão com mais ou menos 35 semanas de gestação. Juntos, eu, Dr Carlos e meu Marido, em consonância e respeito pelo meu desejo. Henrique já era um bebê grande e a versão não foi possível. Nunca vou me esquecer da fisionomia do Dr Carlos… tão solidário com meu sonho… Ele esmoreceu e disse que aquele era o limite da nossa intervenção. Deveríamos marcar a cesárea.

Diante do que passei na minha gestação eu já estava mais madura, mais capaz pra entender os processos da vida e assimilando o fato de que a vida tinha decidido na contra mão do meu desejo. Me dei o direito de chorar novamente, de ficar triste e então amanheceu um novo dia e compreendi que essa era minha história, meus dois bebês de cesárea. Mas entendi também, que eu poderia fazer do meu jeito, dar a minha cara para a situação. Eu teria uma cesárea humanizada. Então o sol brilhou novamente.

Marcamos o nascimento para 7 horas da manhã. Lá fomos nós, papai, mamãe e Fernandinha. Mais maduros, menos assustados. Felizes! Não tive medo, as luzes não pareciam tão claras, a sala não parecia tão fria. O anestesista outro anjo de Deus. Me olhou nos olhos, segurou minha mão, explicou o procedimento. A Pati me acalentava com sua presença, com seu olhar maternal. Dr. Carlos foi uma ponte entre eu e meu bebê. O fato de entendermos que seria assim porque a natureza escolheu, me deixou confiante. 

Eu não fui enganada, ninguém roubou meu momento, pelo contrário, estavam todos unidos me devolvendo aquilo que havia sido tirado de mim quatro anos atrás. Henrique nasceu com 3,800kg e 51 cm, um baita bebê, meu bebê decidido, que já veio me ensinado lições antes mesmo de eu conhecer seu rosto. Ele saiu de mim e veio pro meu colo (pro colo, não pro pescoço). Ainda exatamente como vivia dentro de mim, natural, verdadeiro. Meu corpo inteiro esquentou e senti a ocitocina tomar conta de mim. Tentou mamar, pude acariciá-lo e sentir que ninguém o tiraria de mim. Todos os procedimentos pós- parto foram respeitosos, dentro do que eu acredito. Henrique não tomou banho imediatamente, não usou colírio, não foi aspirado. O pediatra também tinha asas. Pati me acompanhou na sala de recuperação, cheguei tranquila no quarto, meu bebê dormia placidamente. Não senti tanta dor porque não rejeitei o processo, por que me senti respeitada e entendida. Fomos pra casa felizes, nossa família e nossas histórias.

Meu intuito em dividir minha experiência com vocês é mostrar a força da vida, aquela força que ultrapassa nossas próprias decisões e que nos revela que nem tudo está sob nosso controle. Enfim… a vida tem esse direito, mas um único ser humano presunçoso, insensível, que brinca de Deus, definitivamente, não. Não deixem que roubem de vocês seus momentos preciosos. Está dentro de cada uma de nós o talento natural sermos mães, essencialmente animais, mamíferas cheias de instinto. Tenham voz ativa, procurem grupos de apoio e assumam pra vocês mesmas o grande poder de ser fêmea, a grande missão de parir… o legado de dar a vida.

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2 thoughts on “Relato de parto – Fer e Ique

  1. Anie Couto

    Amei seu relato. Minha filha nasceu de cesária, mas acredito que necessária com o Dr. Carlos de 41s e 3d. Eu fiquei tão nervosa e decepcionada por ter que marcar uma cesária que achei que não precisaria da Pati…nem cheguei a perguntar pra ela o que ela poderia fazer para a minha cesária ser melhor. Me arrependo! Logo vou engravidar de novo, quero um parto…se tiver que fazer cesária não irei abrir mão de ser acompanhada pela Pati. Vou lembrar do seu relato.

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  2. simonne maria

    Olá mamãe da Fer e do Ique!

    Adorei ler o seu relato. Estou com 15 semanas de gestação e muito ansiosa e cheia de dúvidas também sobre as escolhas que devo tomar, apesar de saber que desejo ter um parto humanizado, isso é a minha única certeza por enquanto. Uma coisa me deixou intrigada na sua história, se com 35 semanas não foi possível fazer a versão, porque marcaram logo a cesárea e não esperaram o trabalho de parto iniciar-se para internar e realizar o parto cesáreo?
    Apenas uma dúvida de quem está tentando entender o máximo possível sobre parto e todas as suas possibilidades :)!
    Parabéns pela sua história e também pela generosidade em compartilhar!
    Um abraço!

    Simonne

    Reply

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