Relato de parto – Leonardo

Definitivamente, estou devendo este relato pra uma quantidade absurda de pessoas; meu filhote já tem mais de 30 dias e esta já é a terceira ou quarta tentativa de escrever algo decente (afinal, sou agora uma mamadeira/chupeta ambulante, requisitada em intervalos no mínimo, peculiares =P)

Gestação

Eu já tinha um molequinho de 3 anos, nascido de um PN bem frank. Mas mesmo depois desse PN, ainda tinha aquela certeza absoluta que poderia ter sido um milhão de vezes melhor; e não desisti de ter outro.

Engravidei absolutamente rápido dessa vez também (a outra fora não-planejada); passei de “não-evitante” a gestante num piscar de olhos, nem deu tempo de encontrar um GO antes =P. Sabe como é, eu achei que engravidar no primeiro mês era coisa de filme, ou de quem não estava planejando, achei que o ciclo tinha desregulado por causa de antibiótico, essas coisas. Mas depois de um teste de farmácia positivo (ó meu susto com as duas linhazinhas!) e um beta positivo, sim, eu deveria procurar um obstetra.

Virei o Orkut de ponta cabeça pra achar referências de um GO que REALMENTE assistisse PN humanizados. Porque, depois de tantos relatos de partos, eu tinha certeza que mudar de médico aos 45 do segundo tempo não era meu maior desejo. Achei a referência que eu precisava; não só de obstetra, mas conheci a Pat também, que viria a ser minha doula (hehehehe adiantando que não deu tempo da Felicitas chegar =P).

Gravidez tranquila, a barriga cresceu, cresceu, cresceu, então eu já era a mulher melancia!  Tive aqueles sintomas bizarros da gestação, enjôos, cansaço, sono, fomes doidas, paladar alterado, humor muito alterado, blablablablabla, tudo normaaaaaalz e esperado. Claro que a segunda gestação foi tremendamente mais tranquila que a primeira, porque não era mais mãe adolescente tampouco tida como uma pária social.

Embora no começo da gestação eu achasse que era uma menina, era um menino =). O que, vamos colocar assim, faz que todos perguntem se vou tentar mais uma gravidez para “tentar” uma menina. É inacreditável como as pessoas acham que uma família só pode ser feliz se tiver um casal de filhos. Pasmem.

De todas as possíveis complicações que eu poderia antever, uma não imaginei; como é difícil ser dissonante. Houve um episódio na semana 36, em que durante alguns pouquíssimos dias, meu menininho resolveu ficar pélvico. Foi inesperado; e o mais difícil da situação foi que não podíamos contar a ninguém. Parece que as pessoas não levam em consideração seus desejos nessa hora, e o comentário estúpido “Ah, que bom, daí já dá pra marcar a cesária logo” parece que está na ponta da língua, inclusive daquelas pessoas que sabem da sua escolha…

Última Semana

Das últimas semanas, as contrações estavam lá, cada vez mais presentes e incômodas. Com 39 semanas, estava com 3cms de dilatação, e eu numa ansiedade…………. E eu achando que ia ser naquele fim de semana, em que completava 40 semanas, e que naaaaaada. Muitas, muitas contrações, e naaaaaaaaada de TP. Ok. A gente espera. Claro que a gente espera. Eu nem estava com pressa, mesmo!

Fim de semana passou. Segunda feira, contrações contrações contrações, a intervalos de 10 minutos o dia inteiro, a noite começaram a doer um pouquinho. Doulas previamente avisadas. Sentar em cadeiras era tremendamente desconfortável, ainda bem que a bola estava presente !

Ok. As pessoas estão curiosas; quando eu disse final de outubro/começo de novembro, as pessoas devem ter ouvido setembro, sabe surdez seletiva? Não, eu não sei quando nasce. Não, ainda não nasceu. Quer dizer, sim, já nasceu, é que eu gosto de carregar peso e coloquei uma melancia na barriga. Sim, é menino; o nome é Leonardo. Nasce um dia desses. Sim, eu sei que criança dá trabalho. Definitivamente eu devo ser uma barriga ambulante! Eu poderia conversar sobre as eleições presidenciais estadunidenses, poderia discursar sobre construtivismo, arranhar algum conhecimento de teoria musical, mas NÃO, todas as pessoas só olham LITERALMENTE para o meu umbigo.

Chega terça.

Sim, eu sei que a barriga está grande. Sim, eu sei que tá chegando a semana 40. Meu canário belga, eu vou BATER EM VELHINHAS NO ÔNIBUS, será que as pessoas poderiam me cumprimentar olhando o meu rosto ao invés de perguntar quando nasce? Eu devo realmente ser a única DOIDA DO PLANETA que espera o filho vir ao mundo quando quiser?????

Passa quarta.

Imagina, grávidas NUNCA surtam. Parei de trabalhar (e olhe que eu amo meu trabalho), parei de atender o celular, parei de entrar no MSN. Inclusive nesse dia, depois de umas 10 ligações perdidas no celular que estava no vibra, meu marido chega esbaforido em casa achando que eu morri hohohohoho.

Quinta feira.

Desisto e surto MESMO. Faço cara de “Te conheço? Você é completamente doido!” para o velhinho que nunca vi na vida que fez o infeliz comentário “Esse bebê não vai nascer?”. Não sei, foi a resposta mais educada que me veio a cabeça, pois minha vontade era de socá-lo mesmo.
Quatro centímetros de dilatação, ou quase isso. Como eu estava beirando as 41 semanas, o obstetra pergunta se eu gostaria de induzir o parto, no sábado. Reitera que eu e o bebê estamos bem, que podemos esperar com certeza, e tudo depende apenas da minha vontade.
E agora, queria eu induzir ou não? Não seria definir quando meu filho nasce? Mas e as pessoas perguntando, e a ansiedade de ver meu filhote?

Dia P

Sexta. 40 semanas e 5 dias.
As contrações estão lá, firmes e fortes, mas estava com uma colicazinha no pico. E o meu medo de não ser TP? Vou induzir ou não? É psicológico? Estou surtada mesmo, definitivo!
As colicazinhas estavam lá, levei meu mais velho pra escolinha. Meu medo absurdo de não ser TP não me deixava nem contar o tempo das contrações, mas devia estar nos 10 em 10. Tomei banho, blablabla, e nesse meio tempo, estando sozinha em casa, pedi pro meu marido “estender” o horário de almoço dele e vir pra casa, pra comer comigo. Na maior preguiça do mundo, resolvi fazer um baita cappeletti, daqueles de massas frescas, porque cozinhar nunca foi meu forte mesmo.

Perto do meio dia, as contrações realmente ficaram mais vigorosas. Daí testei todas as possibilidades: chuveiro, chuveiro com bola, deitar, sentar, acocorar, e o que realmente melhorava era andar. Quando meu marido chegou, eu falei pra ele “olha, deve ser TP, porque eu já estou achando essa coisa de PN, de sentir dor uma idéia de girico!”. Comemos (e vou contar que de repente me surgiu uma fome descomunal) e achei que eu ia era fazer buraco no chão de tanto andar em círculos! Tá, 5 em 5, realmente isso DEVE SER um TP. Chamemos a doula.

(Em tempo: meu primeiro parto eu estava sozinha, fui internada precocemente; estava tremendamente assustada, e passei muito muito mal. Logo, minha dedução era “ah, quando eu estiver muito muito mal, com muita dor, achando que vou morrer, daí sim estarei em TP de verdade verdadeira” )

E a coisa continuou nesse ritmo, anda anda anda anda. Sim, dava para conversar entre as contrações. Pat chegou aqui em casa lá pelas 2 horas; contou DE VERDADE as contrações e estavam de 3 em 3 (elas tinham um padrão engraçadinho, com uma forte e uma mais fraca).

Sendo assim, era “interessante” que fóssemos pra maternidade. Certo, mas o mais velho tinha que ir pra casa dos avós. Então meu marido ia pegá-lo na escola, levar aos pais dele, e voltar para irmos pra maternidade; o que definitivamente não daria mais que 40 minutos. A Pat perguntou se não tinha maneira de eles irem buscá-lo na escola, mas eu não achei boa idéia porque eles nem sabiam onde ficava a escola. E também, na minha cabeça não tinha nenhuma pressa (eu estava achando que só ia nascer beeeeeeem tarde, porque afinal eu ainda conseguia pensar!), sendo assim eu não queria ficar preocupada com horário, se o buscaram, etc.

Por uma coincidência, meus sogros não estavam em casa, não atendiam celular. Ok, meu marido levou o mais velho na minha mãe (detalhe, ela mora do outro lado da cidade). Resultado, 1 hora e meia no trânsito hehehehehehe. Meu marido avisou a Pat, mas ela só falou que estava muito trânsito.

Nesse meio tempo, a doula ajudou bastante. Sugeriu mexer o quadril para os lados durante as contrações, e também tinha o mesmo efeito de andar. São sugestões simples, que fazem toda a diferença. E vamos combinar, alguém tem que pensar por você nessa hora =P!

Sim, estava doendo. Sim, eu estava num sono ABSURDO; deitava entre as contrações. Eu estava branca (bom, eu já sou branca mesmo, mas estava mais). Estava cansada, sim. Mas eu ainda estava esperando aquelas dores terríveis.

Eu vi que a Pat estava bem preocupada. Já tinha ligado pro Dr, que estaria na maternidade. Ela estava bastante ansiosa para que fôssemos logo pra maternidade, mas JURO que achava que ela estava sendo otimisma demais. Eu ainda achava que ia longe, longe, mas ok. Eu tb estava achando que ela estava ligada demais a essa coisa de contar as contrações, mas sei lá, né! Até falei pra Pat “Se eu tiver com 5 ou 6 cms ainda, vou chorar!” e ela falou que não, que eu deveria estar com uns 8. Detalhe que ela já estava achando que ia ter que aparar o bebê! Depois ela inclusive falou que já estava pensando que o tapete da sala já era, e pensando em N planos Bs, onde encontrar toalhas, etc.

Ok, papai chegou, vamos pra maternidade. Pra vocês terem uma idéia de como eu ainda estava “tranquila”, me lembrei até de dar comida pra gata antes de sair!

Bom, contrações no carro REALMENTE não são nada agradáveis, ainda bem que elas deram uma boa espaçada no caminho! (Confesso que as contrações ficaram mais complicadas de encarar, porque afinal eu tinha agora que prestar atenção a coisas externas. )

Chegando na maternidade, o médico já estava lá. Dilatação total. Só a bolsa. Nessa hora acho que tudo adquiriu uma urgência absurda para mim! Embora que eu ainda não estava conseguindo compreender que faltava pouco. O dr. perguntou se eu queria romper a bolsa, e eu quis sim. Não me perguntem porque eu quis, eu quiiiiiiiiiiiiiis. Ponto.

O pediatra estava em congresso, logo teria que ser no centro cirúrgico. Mas, sinceramente, faltava tão pouco que realmente nem me preocupei.

Eu não consigo me lembrar exatamente o que aconteceu e em que ordem, eu estava láaaaaaaa na partolândia. Mas estava segura e tranquila, mas não deixava de estar mutcho loca.

Atéee internar, subir, todo mundo se trocar, blablablabla, ok, até que enfim todos (ou quase todos, faltava o maridex) no centro obstétrico. E eu estava ainda me sentindo “o que raios eu estou fazendo aqui”; a doula perguntou se eu estava com vontade de fazer força. E eu respondi “não!”, aliás nessa hora nem me lembrava disso. Acho que a pergunta acionou a alavanca! Na próxima contração já mudei de idéia!

Marido chega, rompida a bolsa (e ela tava fortinha hahahahaha) – senti até um “ploc” quando me levantei da mesa. A Pat perguntou se eu queria parir na cama, e definitivamente me pareceu uma péssima idéia. Então ela sugeriu sentar no colo do marido, achei BRILHANTE. Então o papai sentou na escadinha a eu usei ele como “banqueta” de parto, e sentei ali, e nas contrações, sentia aquele puxo absurdo (detalhe: ele não fazia idéia de que poderia ser usado como banquinho). O médico e a doula sentaram em banquetas à minha frente e ficaram ali, me “esperando” – achei essa sensação muito engraçada.

Fiz algumas forças, e ouvi o doutor falando que estava coroando – o papai falou que eu havia dito que estava “queimando”, mas realmente não me lembro. Coloquei a mão, mas sei lá se senti ou não. A próxima contração, eu estava achando que não tinha dado diferença, que a cabeça estava começando a sair; olhando pelas fotos, eu vi que já tinha saído quase todo o couro cabeludo! Na próxima contração, eu só senti uma grande movimentação seguida uma sensação absoluta de alívio. Mas levei algumas frações de segundos pra entender que tinha JÁ nascido, aliás quando ele foi colocado no meu colo, aí eu realmente comecei a compreender que ali estava meu filho, ligado a mim ainda pelo cordão, todo sujinho! Chorou, chorou, coloquei ele pra mamar, DORMIU! hehehehe

Aliás, parece que o mundo pára de girar nessa parte final do parto; o mundo deve ficar em animação suspensa, e de repente, quando aquela pequena criatura enrugada vai para seus braços, os ponteiros voltam a andar. Você estava numa avalanche emocional tão forte, você sentia tantas coisas diferentes ao mesmo tempo, em tanta intensidade, e tudo explode numa felicidade absurda de ter seu filho nos braços. Eu até brinquei “ok, agora posso ir embora? Acabou, assim, fácil?”

Nesse meio tempo, foi cortado o cordão, saiu a placenta (que sensação absoluta de alívio!), e deitei na maca para serem feitos os pontos (deu uma laceraçãozinha). Eu estava tão feliz, mas tão feliz, que poderia ir a uma festa naquela hora. Eu estava extasiada, era a rainha do dia.

Bom, o pediatra também foi ótimo, e veio dar uma olhadinha no bebê por esses tempos! Lembro que ele comentou que já estava rosadinho e eu ainda falei “agora tá ainda mais lindo!”. Mas nem tirou do meu colo nessa hora =)

Não faço IDÉIA de quanto tempo o expulsivo ativo durou(com certeza foi menos de uma hora por conta do horário da internação), mas pra mim foi tudo rapidíssimo. Devem ter sido umas 3 contrações até coroar, e umas 3 pra sair. Ah, ele estava com dorso a direita, sim, mas isso não fez diferença nenhuma!

Depois disso, levaram uns bons minutos pra me levar para o quarto (sabe como é hospital, troca de turno, etc), nem sei bem porque. Eu fiquei puxando papo lá dentro, e estava tão feliz que estava REALMENTE com vontade de ir para o quarto andando. Nesse meio tempo o bebê foi pro berçário tomar a vacina e a vitamina K, pesado e medido, e ser avaliado “full” pelo pediatra. Meu marido relata a CARA da enfermeira quando ele a informou que nós que daríamos banho no quarto.

Ao chegar no quarto (eu fui paciente pra andar na maca, admito!), pulei pra cama e logo veio meu filhotinho de periquito; mamou direitinho dessa vez. Nasceu com 3650Kg e 49 cms.

Saímos da maternidade na manhã seguinte; mas ainda deu tempo da enfermeira do berçário estranhar do porquê queríamos ir embora tão cedo e se o bebê não iria cair do sling. Normal, né, gente.

Eu sempre falo que recém-nascidos dão um mega trabalho e vc irá cuidar da santa criatura por vários anos da sua vida. Uma das poucas ajudas que a natureza dá é esse momento, momento de se apaixonar pela cria para que a tarefa não seja tão enfadonha.

Conclusões para a posteridade

De cara, eu reparei que não estava mais em condições de discutir a via de nascimento com outras pessoas, então aí vai minha dica: quando perguntarem “e aí, vai fazer cesária?” ou “já marcou a cesária?”, saia pela porta lateral com “eu não, tenho medo de cirurgia”. Afinal, todas as pessoas sãs tem medo de cirurgias!

Eu não achei as dores das contrações tão terríveis quanto pintam por aí. A dor da contração é tipo uma onda; ela não é inesperada. Ela vai subindo, subindo, subindo, como uma onda; daí atinge o pico e desce, desce, desce. O pico é pequeno. Muitas e muitas vezes, quando está subindo parece que vc não vai aguentar, mas daí ela começa a descer. Pra mim, era como uma dor de cólica menstrual mesmo, um tanto mais fortinha. Vc sempre sabe como ela vai se comportar, vc tem tempo de se preparar para encará-la.

Como a dor não é contínua, vc sempre tem tempo pra respirar. Mesmo no final, que parece que o início de uma contração emenda no final da outra, vc sempre tem ali, nem que se seja 15 segundos, pra respirar e se recuperar. E é o pico que pega…

E sempre tem uma posição que a contração dói menos. Tem gente que fica na bola, tem gente que fica debaixo do chuveiro, agachada/acocorada, sentada, com massagens, andando, rebolando, etc.

O que pega num parto é o cansaço. Essas contrações vão cansando mesmo. Às vezes parece que aquilo não acaba nunca; ainda bem que só pensamos isso prq já estamos no finalzinho. Esse cansaço, esses picos que nos levam ao estado alterado de consciência, que chamamos carinhosamente de “partolândia”.


No primeiro parto, tão grande era meu pavor que eu nem cheguei perto da “região boa da partolândia”. O expulsivo foi mega cansativo, eu não tinha forças para empurrar. Já nesse parto, eu nem conseguia PENSAR em não empurrar, porque é uma vontade absurdamente forte, impossível de controlar.

O medo faz as contrações serem insuportáveis. Realmente.

De todo esse relato monstro, eu queria apenas lembrar a todas que TODAS somos capazes de parir. Somos capazes de conceber, gestar e parir. Não percam essa oportunidade única na vida de vocês por medo ou desinformação; o parto é um momento intenso. =)

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